VIDA CINZA
Fez tudo como os outros, e até um pouco mais, mas somente na escola, pois, se formou com louvor em uma faculdade condecorada com professores-doutores de volumosa bagagem de diplomas, títulos e prestígio internacional! Por insegura feiura, que não é tanta, ou falta de vocação ou por indecisão ou por qualquer outra inócua razão, não se casou. Agora, com formidável acúmulo de anos de existência, vive só! Vive o ócio de uma aposentadoria sem vida! A solidão parece que não lhe dói! Mas, o caído semblante e perscrutador olhar parecem sempre querer saber como os outros estão sendo felizes. Sente que envelhece, porque quase nada o surpreende ou interessa! As festas e os passeios dos tempos jovens foram substituídos pelo infindável mutismo à frente da televisão. Frequentemente intempestivo nos tempos idos, lamenta as perdas resultantes do seu desatino! Encontrou a serenidade, mas sabe que ela é um tanto tardia, pois, o espaço que a sua vida ainda abrange é de um horizonte tão distante quanto uma ponta à outra de uma régua!
VATTEL
Era administrador do castelo do seu senhor feudal francês. Hábil, criativo, era notável chef e organizador de festas e saraus, com talentos no lidar com a criadagem, que, aliás, o amava! Sua arte era tamanha, que o Rei de França, Luiz XIV (1638-1715), ao passar um final de semana com sua faustosa corte no dito castelo, ordenou que Vattel fosse trabalhar no Castelo de Versalhes em Paris, após "ganhá-lo" do seu senhor num jogo de cartas, não deixando escolha para o pobre homem, um sujeito íntegro e avesso às conveniências das palavras e das atitudes! Apaixonado, com reciprocidade, por uma moça da corte, não poderia desposá-la, pelas óbvias razões de ser um simples trabalhador e não um ocioso nobre da França, que já prenunciava seus passos em direção à queda da Bastilha. Vattel pensava que administrava sua vida, mas deu-se conta que era, na verdade, seu escravo, assim como escravo da vontade dos outros. Não fazia suas próprias escolhas, como muitos não as fazem, nos tempos de hoje. Evolui a ciência, evolui a tecnologia, permanece o homem na prisão de si próprio!
SOLIDÃO
"A solidão é um campo demasiado vasto para ser atravessado a sós." - Lia Luft, escritora, em 'Pensar é transgredir.'
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