



I) CRÔNICA
Aos 96 anos de idade, era uma pessoa afável. Tinha os movimentos lentos, a falta de pressa e a fala pausada dos que não precisam provar mais nada. Lúcido, era também culto, atencioso e bem humorado. Tinha o refinado gosto pela gastronomia e estava sempre a dizer dos espetinhos de insetos fritos que havia comido nas suas viagens à China e à Tailândia, assim como dos queijos e vinhos de quando esteve em Paris, caminhando entre os intelectuais de Montmartre e o Museu do Louvre, e os sanduíches e enormes bistecas que experimentou nos Estados Unidos. Era engenheiro aposentado, com doutorado e passagens como professor-convidado por diversas universidades nos Estados Unidos e Europa. Viúvo há muito, morava só em um enorme apartamento do qual nunca quis se desfazer por desejar preservar memórias que lhe eram caras. Livros, havia muitos pela casa, sempre nos lugares certos: na biblioteca, que considerava um templo sagrado, mas, principalmente, sobre a mesa do escritório e à cabeceira da cama. Era um intelectual sensível, mas, antes de tudo, um homem muito bom.
Um dia, teve um pressentimento estranho. Sem cogitar o que e do porquê, levantou-se, tomou um banho, preparou seu café, vestiu-se e saiu. Foi até o sapateiro responsável pelo conserto dos seus sapatos há mais de 30 anos, sem levar nenhum sapato.
- Bom dia! E os sapatos!?
- Sem sapatos hoje. Acho que não precisarei mais deles, mas, quero agradecê-lo pela amizade e por todas nossas boas conversas. Acho que não chego até o Natal!
- Que isso! O senhor ainda vai longe......
Saiu dali e foi até seu barbeiro, que frequentava a outros tantos anos, e com quem trocava seus conhecimentos sobre a história da humanidade.
- Eu já estava me perguntando quando você apareceria. Seu cabelo já passou do ponto.
- Não vou cortá-los hoje e acho que não me sentarei mais na sua cadeira. Agradeço a você pelas nossas trocas e pelas risadas que demos juntos esses anos todos. Acho que não chego até o Natal!
- Que isso! O senhor ainda vai longe......
E assim continuou ele, visitando o quitandeiro, a dona da banca de jornais, os seus amigos de uma vida, enfim, o que lhe sobrou, uma vez que não estava mais inserido na grande malha produtiva, e a história sempre se repetia: 'Que isso! O senhor ainda vai longe......'
Bem humorado, voltou para casa, falou um versinho de improviso para um lindo nenê lorinho e de olhos azuis que estava com os país na saída da portaria, e aproximando-se dos porteiros do prédio, repetiu o que havia dito a todos os outros, e, mais uma vez, ouviu: 'Que isso! O senhor ainda vai longe......'
No dia seguinte, seu filho, um homem de mais de sessenta anos, chega afobado ao prédio, pergunta ao porteiro pela chave do apartamento e diz que algo deveria ter acontecido com seu pai, porque seu telefone não respondia. Relutante, mas lembrando-se do que dissera no dia anterior, o porteiro, e o filho atrás, se apressaram em direção à porta do apartamento presumindo o pior, no que, estavam certos.
Ele não chegou até o Natal daquele ano, mas foi longe na vida, que foi plena, cercada de simplicidade, generosidade, sobrevivendo a tempestades pessoais, pressão alta, diabetes, sequestros-relâmpagos, confiscos, inflação exorbitante, ditaduras, corrupção, guerras mundiais, derrota da seleção brasileira na final da Copa de Futebol de 1950, 'saidinha' de banco, queda de impérios coloniais, fim de ditadores, morte de líderes que fizeram a diferença, fim da carreira da aeronave Zepppelin, na qual deveria viajar, colosso nazista que se incendiou quando aterrizava em New Jersey, com seus 213 metros de comprimento, e também de milhares de outros momentos de alegrias e emoções, embaçados pela memória do tempo.
Foi uma vida plena de um homem feliz que não chegou até aquele Natal como pressentira, mas que viveu de forma a ser chamado de bom homem, em meio a uma terra árida e abundante de cactos.
O homem não é uma montanha, mas pode ter uma vida tão grandiosa quanto ela pode ser, vivendo seu tempo certo!
II) MESTRES
"A esperança não murcha, ela não cansa, também como ela não sucumbe à crença. Vão-se sonhos nas asas da descrença, voltam sonhos nas asas da esperança." - Ciro dos Anjos (1906-1994), jornalista, professor, advogado, cronista, romancista, ensaista, memorialista e imortal da Academia Brasileira de Letras.
III) LITERATOS
Hilda Hilst (1930-2004), escritora, patrono da cadeira nº 8 da Academia Joseense de Letras, é reconhecida pela crítica brasileira uma das mais importantes vozes da língua portuguesa do século XX, atuando na poesia, no teatro e na ficção. Pessoa culta, tinha um temperamento transgressor, prezando a liberdade, além de ser possuidora de rara beleza e coragem. Seu primeiro livro 'Presságio' é de 1950, sua estréia na dramaturgia aconteceu em 1957, e na ficção, em 1970. Em sua obra, ela retrata, sem cessar, a limitada/ilimitada, frágil e surpreendente condição humana, além da solidão, perplexidade e grandeza do homem diante do mundo.
.........................Dez chamamentos aos amigos...............................
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
IV) COMPORTAMENTO
VELHICE
William Bonner, o apresentador do Jornal Nacional, Caetano Veloso, longevo representante da música popular brasileira, e o falecido deputado-constituinte Ulisses Guimarães, trataram e tratam a velhice como um grande e irreversível mal. Já o cantor e ator Toni Tornado, de 81 anos, aparentando 20 a menos, fala feliz e com segurança, da sua idade. Outros, referem-se à velhice como a melhor idade. A melhor idade deveria estar dentro de cada um, em todas as idades em que prevaleça o equilíbrio, o otimismo e a eudaimonia, a felicidade, com ou sem dores, com ou sem pele viçosa, com ou sem vagar, com ou sem preconceito.
Felizes os felizes que entendem o inevitável ciclo da vida, e que, de cada instante, extraem a sua melhor seiva!
V) HISTÓRIA
São José dos Campos começou a receber a receber tuberculosos no final do século XIX, mas o núcleo de tratamento tisiológico e climatoterápico começou a surgir no início do século XX com o médico Mário Galvão, ele próprio tuberculoso, que viria a se curar aqui, e também a tratar os doentes que o procuravam. A porta do seu consultório, que ficava no Largo da Cadeia (Praça Afonso Pena), no prédio que já foi Paço Municipal, Instituto de Educação Cel. João Cursino, Câmara Municipal e onde é hoje o Espaço Cultural Mário Covas, ficava aberta o tempo todo.
VI) PENSAMENTO
O comedimento e a quietação, apesar de, geralmente, serem bons conselheiros, são de pouca valia nos muitos esbarrões do viver. O brado e o rompante, em princípio, têm melhor acolhida.
VII) TÚNEL DO TEMPO
STAR TREK (JORNADA NAS ESTRELAS)
O Jornada nas Estrelas original narrava as aventuras interestelares do capitão James Kirk (William Shatner), sempre acompanhado do raciocínio lógico do vulcano Mr. Spock (Leonard Nimoy) e do Dr. McCoy (DeForest Kelley). O filme teve tanto sucesso, que se transformou em série, exibida nos anos 1960 e 1970, e, mais tarde, viria a ter sequências com novos atores e histórias. William Shatner (nascido em 1931), eclético, já trabalhou como escritor, produtor, diretor, músico, e como ator em outras séries de sucesso, tendo até hoje fãs pelo mundo todo. Após uma fase de decadência, fez o papel de um advogado na série Boston Legal, sendo agraciado com o prêmio Grammy em 2005, pelo seu desempenho. Leonard Nimoy (nascido em 1931) é vegetariano e ainda atua na série de tv Fringe, mas sua ocupação principal é como fotógrafo.
Vídeo de STAR TREK - clicar sobre: www.youtube.com/watch?v=kJ40PDizAM
fotos - Nascer do Sol (Claude Monet) - Hilda Hilst - Star Trek - Zeppelin sobrevoando a Baía de Guanabara em 25/5/1930
Muito Bom!
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