I) CRÔNICAS
INSENSATO CORAÇÃO
Na capital do Estado, um motorista que teria saido do estacionamento sem pagar o ticket, aproveitando-se da abertura da cancela para o carro que estava à sua frente, foi condenado pelo Tribunal de Justiça a pagar o referido ticket, no valor de R$ 3,00.
Acionou-se a Justiça por um 'direito' de valor ínfimo, onde o bom senso foi para as calendas, para um tempo que nunca há de vir, o tempo da compreensão ponderada, do entendimento, da conciliação e da prática de valores mais elevados.
Embora a atitude de frágil caráter do condutor do veículo seja por todos os títulos e virtudes, condenável, demandar em nome de um 'direito' sobre valor tão irrisório, é caminhar na direção oposta ao bom senso.
O dia a dia é repleto de demonstrações de abusos nas relações humanas, e os deficientes físicos, os idosos, os social e economicamente mais frágeis, os não revestidos de notoriedade e os não investidos de algum poder de mando de título público, são os alvos cotidianos da intransigência, da insensatez e do autoritarismo dos intolerantes e arrogantes.
É o ser humano vivendo a aridez do deserto dos seus sentimentos mais elementares.
A CIDADE ONDE VIVÍAMOS
O deputado descia a avenida principal cumprimentando a um e a todos.
O prefeito, jornal dobrado sob o braço, sem assessores à volta, conversava, tranquilamente, com o amigo em frente à tradicional banca de jornais.
Os jovens e adultos subiam e desciam a avenida, impedida ao trânsito, após a tradicional sessão de cinema, num footing onde podia-se encontrar 'todo mundo.'
As famílias de sobrenome, eram de todos conhecidos e reconhecidos por seu poder econômico e benemerência.
Não havia shoppings e as lojas eram as do centro da cidade, onde o tradicional mercado era uma referência.
Carros e caminhões conviviam com charretes de aluguel e centenas de bicicletas.
A maioria das ruas era de terra, e de barro quando chovia.
O sanatório ficava muito longe e sua robusta arquitetura estigmatizava a invisível presença da terrível tuberculose.
Não faz tanto tempo, mas, ao mesmo tempo, aquela cidade está num recôndito canto das impressões vividas.
Não era melhor, era somente aquele tempo, vivido, para que se pudesse chegar ao hoje.
II) MESTRES
" O prazer que o homem deve buscar não é o da pura satisfação física imediata e mutável, o prazer do movimento.
O prazer que deve nortear a conduta humana- o prazer com dimensão ética e não apenas natural - é o 'prazer do repouso', constituído pela ataraxia (ausência de pertubação) e pela aponia (ausência de dor). Ambas podem ser alcançadas na medida em que o homem, através do autodomínio, busque a auto-suficiência que o torne um ser que tem em si mesmo sua própria lei, um ser autárquico, capaz de ser feliz e sereno, independentemente das circunstâncias.
Epicuro (341-270 a.C.), filósofo grego.
III) LITERATOS
Adélia Prado, escritora brasileira nascida em Divinópolis-MG, em 13 de dezembro de 1935, faz poesia com textos que retratam o dia a dia com perplexidade e encanto, onde a fé cristã é uma presença constante.
Nas suas obras nota-se também a presença dos sentimentos de uma mulher que lembra o conflito tipicamente barroco: a dicotomia entre os apelos do corpo e os de elevação espiritual.
Professora por formação, exerceu o magistério durante 24 anos, até que a carreira de escritora tornou-se a atividade central.
Faz literatura e poesia a respeito do cotidiano, chuva, casa, missa, vizinho, movimentos, gente.
Em 1976 lançou seu livro Bagagem no Rio de Janeiro, com a presença de Juscelino Kubitschek, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Linspector e Nélida Piñon.
Em 1978 lançou a obra Coração Disparado, com o qual recebeu o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.
Suas poesias: Bagagem (1975); O Coração Disparado (1978); Terra de Santa Cruz (1981); O Pelicano (1978); A Faca no Peito (1988); Oráculos de Maio (1999); A Duração do Dia (2010).
Escreve prosas e antologias e teve obras traduzidas para o inglês e o espanhol.
O seu poema Impressionista:
"Uma ocasião
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo."
IV) PENSAMENTO LIVRE
Muitos rezam, desmancham-se em preces, cantos de louvor e beatitude, mas, no dia a dia, não conseguem superar sua inata agressividade, seus ressentimentos, suas maldades e seus egoísmos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário