I) CRÔNICAS
SUTILEZAS
Detalhes não apercebidos pelos circunstantes.
Momentos furtivos.
Olhares dissimulados.
Sentidos pulsantes.
O não consentido.
O desejado, mas não possível.
Entranhas que pulsam,
desejos que não gemem.
Curvas sistólicas e diastólicas,
em descompassado subir e descer.
Tão próximos,
tão distantes nas impossibilidades!
BURACO NEGRO
O casamento agastado.
A solidão virtual.
O emprego fastidioso.
O mutismo da mediocridade pessoal.
O defensivo e ressentido individualismo.
A vida menor que a sonhada!
II) MESTRES
" Sê forte. Não dês língua a toda ideia,
nem forma ao pensamento descabido.
Sê afável, mas sem vulgaridade.
Os amigos que tens por verdadeiros,
agarra-os a tu'alma em fios de aço.
Mas, não procures distração ou festa
com qualquer camarada sem critério. (...)
Presta a todos ouvido, mas a poucos a palavra.
Ouve a todos a censura,
mas reserva o teu próprio julgamento.
Veste de acordo com a tua bolsa,
porém sê rico sem ostentação,
pois o ornamento às vezes mostra o homem. (...)
Sobretudo sê fiel e verdadeiro contigo mesmo,
e como a noite ao dia, seguir-se-á que a ninguém serás falso. "
William Shakespeare (1564-1616), dramaturgo inglês, em
' Hamlet .'
III) LITERATOS
Cassiano Ricardo (26/07/1895 - 14/01/1974), nasceu em São José dos Campos. Foi jornalista, poeta e ensaísta.
Formou-se em Direito no Rio de Janeiro em 1978. Mudou-se para São Paulo, trabalhou como jornalista em diversas publicações e chegou a fundar alguns jornais.
Em 1950 foi eleito presidente do Clube da Poesia de São Paulo, e entre 1953 e 1954 foi chefe do Escritório Comercial do Brasil em Paris, vindo a ocupar outros cargos públicos nos anos seguintes.
Sua obra está inicialmente ligada ao parnasianismo e ao simbolismo. Na sua fase modernista, explora temas nacionalistas e depois restringe-se mais, louvando a epopeia bandeirante, detendo-se, em seguida, em temas mais intimistas, cotidianos, ou mais próximos da realidade observável.
Em 1937 foi eleito para a cadeira número 31 da Academia Brasileira de Letras. A Fundação Cultural, responsável pela política de cultura do município de São José dos Campos, assim como a principal Biblioteca Pública da cidade, recebem o seu nome. Ele é também o patrono da Academia Joseense de Letras.
Uma de suas obras mais importantes foi Martim Cererê, publicada em 1928. Dessa obra: O bacharel e a cabocla
I
" Eu ia procurar a cabocla
filha do antigo administrador da fazenda,
aquela diaba de olhos pretos duas-jabuticabas
e analfabeta que-nem rola selvagem.
E eu lhe dizia: 'Como eu gosto de você.'
E ela me respondia:
'Não sei por quê.'
Fazia coisas de insensato.
O meu amor por ela era 'uma-coisa-do-outro-mundo'
na manhã recendente
de frutas ácidas e de sol caricato.
E eu lhe dizia: 'Não conheço
mulher mais terra-flor do que você.'
Mas houve um dia
em que eu (como era claro aquele dia!
um sol louro e gaiato
parecia saltar e cantar de alegria)
me declarei disposto a tudo:
'Sou capaz de morrer por você!'
Ela me respondeu:
'Não sei por quê.'
II
Diante dessa mania,
desse não-sei-por-quê de todo dia
resolvi abandonar a fazenda
com os seus frutos de sol e de mel,
para ser... bacharel.
Mas...ó cabocla de olhos pretos!
NÃO SEI POR QUE
nunca mais me esqueci de você! "
IV) PENSAMENTO LIVRE
As boas maneiras e as gentilezas, que não deveriam ser atributos de raras pessoas galantes, mas valores os quais todos, ao bel-prazer, deveriam tomar para si, são muito difíceis de se encontrar, tal qual uma pedra preciosa!
Augusto: A cada vez que leio "MESTRES" sinto-me identificado com sua mensagem. Ou procuro me adaptar a ela. Nesta oportunidade: procuro sempre ser "forte" e agarrar-me aos verdadeiros amigos. Procuro sempre ouvir mais do que falar. Gostei muito de "Veste de acordo com tua bolsa,..... pois, às vezes o ornamento mostra o homem.
ResponderExcluirUma dúvida: Cassiano Ricardo formou-se em Direito em 1978??? Observe a data de seu falecimento!!!
Grande abraço.