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sábado, 18 de junho de 2011

I) CRÔNICAS

O QUE SE DIZ E O QUE NÃO SE DIZ

O pai pediu ao menino de 8 anos para que fosse até à praça chamar um táxi, porque, àquele tempo, ter um telefone era como se ter uma barra de ouro em casa. Mas, antes, fez-lhe uma recomendação.

- Não pegue o táxi do Loredano, ele é tuberculoso.

- Quem é o Loredano? - perguntou o inquieto menino que teve de deixar suas brincadeiras de rua para atender a mais uma incômoda tarefa.

- Ele é como todo tuberculoso: muito magro, pálido, meio lento, e, às vezes, tosse muito.

O menino correu até o ponto de táxi, e ao chegar, por essas coisas inexplicáveis do destino, o primeiro carro com seu motorista em pé ao lado era o do dito tuberculoso. O menino, lembrado da recomendação do pai, caminhou em direção ao outro táxi quando uma voz um pouco trêmula perguntou a ele:

- Táxi, menino?

Era o tuberculoso do Loredano. O menino, na inocência dos seus 8 anos, respondeu:

- Meu pai me disse que não era para chamar o seu táxi porque o senhor é tuberculoso.

A pele do rosto pálido do Loredano avermelhou em uma fração de segundo, e nada mais foi dito.

À noite, o pai, sabedor do ocorrido, porque o chofer de táxi o conhecia e havia verbalizado toda sua indignação em uma conversa áspera que tiveram, chamou o menino.

- Por que você disse a ele que ele era tuberculoso?

- Porque o senhor me disse e o que o senhor diz é sempre a verdade, e que eu tenho que dizer a verdade sempre, também.

E o pai, constrangido - Não faça mais isso!

Desse dia em diante, o menino deixou para trás a inocência da sua infância e abriu a porta do mundo dos adultos.

Se deu conta, intuitivamente, de que a verdade é a nudez, e que essa está sempre coberta pelos trajes da conveniência, da dissimulação ou da mentira, pura e simples!

LANCELOT

O que vai pela cabeça daquela moça, de mais de 30 anos vividos, de longos cabelos até quase os ombros que emolduram seu rosto angelical e sereno?

Caminha sempre com elegante e decidido vagar, como uma rainha.

Parece não ter olhos para ver o que se passa à sua volta, mas, com sua impassível e ereta postura, a tudo percebe com o entendimento dos sábios, o distanciamento dos serenos e a generosidade dos bons.

Parece ser tão indecifrável quanto um hieróglifo, mas, talvez, seja tão doce, macia e romântica quanto as mulheres das cortes medievais à espera da elegância, da força e das boas maneiras dos cavalheiros da Távola Redonda.

II) MESTRES

"Nos governos absolutos, os grandes que se avizinham do trono lisonjeiam as paixões do senhor e curvam-se voluntariamente aos seus caprichos. Mas a massa da nação não se presta à servidão; submete-se a ela por fraqueza, muitas vezes, ou por hábito, ou por ignorância; às vezes, por amor à realeza ou ao rei."

Alexis de Tocqueville (1805-1859), filósofo francês, em 'A democracia na América.'

III) LITERATOS

Manuel de Oliveira Lima (1867-1928), diplomata, historiador, jornalista e bibliófilo, foi também colaborador do jornal Estado de São Paulo de 1904 a 1923.

Nasceu em Pernambuco, filho de um negociante português que fez fortuna no comércio do açucar. Quando estava com 6 anos de idade, o pai decidiu voltar para Portugal com a família. Aos 21 se formou na Academia Superior de Letras e passou a colaborar na Revista de Portugal, dirigida por Eça de Queiroz, quando decidiu voltar ao Brasil para ingressar no serviço diplomático.

Aposentado da carreira diplomática ao fim de uma sequência desgastante de desentendimentos com o Barão do Rio Branco, Oliveira Lima resolveu viver em Washington.

Foi dele o primeiro curso de História do Brasil ministrado nos Estados Unidos, na Universidade de Harvard.

Em 1916, doou, em vida, seus milhares de livros para a Universidade Católica da América, em Washington, onde foi professor.

Hoje eles compõem a Oliveira Lima Library, e o acervo foi lá mantido por seu desejo em testamento, preocupado com o risco de dispersão dos livros, caso fossem enviados ao Brasil.

Além de livros, o acervo tem obras de arte, correspondência diplomática e livros raros.

Escrevia 15 cartas por dia, e entre seus missivistas, estão Machado de Assis e Gilberto Freyre.

Foi membro da Academia Brasileira de Letras em 1902, ocupando a cadeira 39.

Está enterrado no Cemitério Mont Olivet, Washington, e na lápide de seu túmulo, apenas o epitáfio: "Aqui jaz um amigo dos livros."

IV) PENSAMENTO LIVRE

Criados à semelhança de Deus, segundo os cânones bíblicos, somos, na verdade, diferentes, e uns mais diferentes que os outros.

A preponderante maioria se rende às mercês do poder, da notoriedade e do dinheiro, sob a máscara da integridade familial.


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