I) CRÔNICAS
A PALAVRA
O menino, que morava na pequena e sossegada cidade de poucos atrativos, foi, em uma tarde de sábado, assistir a um jogo de futebol em um descampado de terra batida, muito comum em pequenas localidades.
As improvisadas traves eram de irregulares troncos de árvore; redes não havia, e a bola, originalmente marrom, era esbranquiçada devido ao longo e contínuo uso.
O árbitro da partida era sempre alguém de boa vontade, impelido pelo incentivo dos fora de forma e mal uniformizados jogadores.
Lá pelas tantas, o clima de camaradagem já não era o mesmo enquanto os erros do árbitro se sucediam e o nervosismo dos jogadores aumentava, bem como os joelhos ralados.
A pequena torcida, em pé ao lado do campo, gritava e xingava, sérios uns, de bom humor os mais velhos.
Foi quando o árbitro cometeu um erro mais grosseiro ainda, marcando uma penalidade máxima.
O coro de torcedores chamando-o de 'ladrão' e 'burro' cresceu e se repetiu em uníssono, e, cessou de repente.
O menino, na sua inocência, achando tudo uma festa, gritou sozinho: 'ladrão', 'burro.'
O árbitro, uma homenzarrão um tanto gordo e de quase um metro e noventa de altura, pareceu ter ouvido somente aqueles dois últimos gritos, avermelhou-se e olhou em direção ao menino com fúria.
- Foge menino! - gritou um homem mais velho ao seu lado.
De onde estava, o homenzarrão jogou o apito ao chão e saiu em carreira em direção ao menino que, quando viu aquela massa imensa rolando em sua direção, acordou da sua imprudência, dando-se conta do conselho que ouvira.
Montou na velha bicicleta, torcendo para que a rebelde corrente não escapasse como aconteceu de vezes anteriores, e pedalou como nunca antes fizera em sua vida, enquanto o árbitro ficava cada vez maior atrás dele.
Pedalava, e, na sua agonia, seu cérebro-criança prometia que se escapasse dessa, iria à missa com a mãe todo domingo de manhã, confessaria sempre e não cometeria mais seus costumeiros pecados.
A providência colocou à sua frente uma generosa ladeira pela qual nunca havia descido, e a força da gravidade ajudou-o a aumentar a velocidade, deixando, finalmente, o seu quase carrasco para trás.
Mas, só se sentiu livre do perigo depois de chegar ao quintal da sua casa, esconder a bicicleta, entrar em seu quarto e trancar a porta, enquanto o coração parecia sair-lhe pela boca.
Criança, ainda, não sabia que a palavra pode ser uma espada muito afiada, e que o seu melhor lugar é na bainha.
Muitos anos mais tarde, na lição que aprendera, usaria sempre a palavra como uma vara mágica, atributo encantatório que o habilitava a ser uma pessoa ponderada, agradável, educada, conciliadora, e que praticava, em meio à selvagerias dos humanos, o entendimento!
PARAÍSO
O paraíso pode ser aqui mesmo. Pode estar nas pequenas alegrias; no ter-se saúde; no teto que abriga; no agasalho que aquece; nas possibilidades de se ter pequenos gostos satisfeitos; no compartilhar de idéias, projetos, sonhos e desejos; em se ver o sol vir e ir-se; no saborear de ocasiões e pratos especiais.
O paraíso está, mais do que tudo que se deseje ardentemente, na paz interior!
II) MESTRES
" O amor e a razão são dois viajantes que nunca vivem juntos na mesma hospedaria: quando um chega, parte o outro." - Sir Walter Scott (1771-1832), romancista e poeta escocês.
III) LITERATOS
Alexandre Dumas, pai, romancista francês, nasceu em 24 de julho de 1802 e faleceu em 5 de dezembro de 1870. Descendente da nobreza, era neto de marquês e filho do General Dumas, importante militar do seu tempo.
Enquanto trabalhava em Paris, Alexandre Dumas começou a escrever artigos para revistas e também peças para teatro, tendo sua primeira peça, de 1829, Henrique VIII e sua Corte alcançado sucesso de público, que se consolidou com sua segunda peça, Christine, de 1830, tornando-o financeiramente capaz de trabalhar como escritor em tempo integral.
Em 1840, casou-se com uma atriz, Ilda Ferrier, o que não o impediu de continuar a ter casos com outras mulheres, sendo pai de pelo menos três filhos fora do casamento.
Seu trabalho como escritor lhe rendeu muito dinheiro, mas ele vivia endividado por conta de seu alto gasto com mulheres e de seu estilo de vida.
O grande e dispendioso château que construiu estava constantemente cheio de pessoas estranhas que se aproveitavam de sua generosidade.
Sepultado no local onde nasceu(Villers-Cotterêts), seu corpo ficou lá até 30 de novembro de 2002, quando o presidente francês, Jacques Chirac mandou transportá-lo para o Panteão de Paris, mausoléu onde grandes filósofos e escritores da França, como Vitor Hugo e Voltaire estão sepultados.
Alexandre Dumas escreveu romances e crônicas históricas com muitas aventuras, que estimulavam a imaginação do público francês e de outros países nos idiomas para os quais foram traduzidos, além de terem sido transformados em muitos filmes.
Entre suas obras: Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo, e Os Irmãos Corsos.
A casa de Alexandre Dumas fora de Paris, o Château de Monte Cristo, foi restaurada e é aberta ao público.
.........Trecho de Os Três Mosqueteiros, quando d'Artagnan cavalga ao lado do seu criado Planchet, em meio a um bosque:
.......... - Não acha, patrão, que os bosques são como as igrejas?
.......... - Por que diz isso, Planchet?
.......... - Porque não ousamos falar em voz alta nem aqui nem lá.
IV) PENSAMENTO LIVRE
Intolerância é a erva daninha causadora das dissensões: nos lares, no trânsito, nas disputas esportivas, nas crenças, religiosas ou não, enquanto a compreensão e o entendimento são as raras pepitas da virtude que estão quase sempre aquietadas no recôndito do melhor do ser humano!
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ResponderExcluirEscrita gostosa e instrutiva, fechada com um pensamento do qual partilho.
Abraços.
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