I) CRÔNICAS
SER ANALÓGICO
No marrom-acinzentado da sala de estar, a vitrola em móvel de madeira e os antológicos discos de trinta e três polegadas, revolucionária tecnologia de tempos há muito idos.
Os porta-retratos amarelados pelo tempo.
A caneta tinteiro.
O papel carbono.
A máquina de escrever.
As impalpáveis desilusões, como nuvens, letárgicas, vagando por sua mente ausente.
A distância da vida pulsante lá fora.
O sempre conservador modo de pensar que não se apercebe que ao velho se sucede o novo, para as coisas e as pessoas.
A não percepção de que não se pode viver no passado, pois, quem assim o faz, está um vegetal vivo, que anda!
EQUILÍBRIO
Desejar algo ou alguém demais, de maneira passional, gera expectativas que, caso não sejam correspondidas, causam angústias que podem arranhar ou destruir o espírito.
Esse desejo, dentro de um racional equilíbrio, o meio-termo, não é sempre tarefa fácil para comuns mortais, mas, talvez para filósofos, desde os pré-socráticos até os contemporâneos, que explicam todos os caminhos da alma humana, mas que nem sempre experimentam as dilacerantes dores de todas as vivências.
II) MESTRES
" Examinemos a criança ainda nos braços de sua mãe; vejamos o mundo exterior a refletir-se pela primeira vez no espelho ainda obscuro da sua inteligência; contemplemos os primeiros exemplos que lhe chamam a atenção; ouçamos as primeiras palavras que despertam nele as forças adormecidas do pensamento; assistamos, por fim, às primeiras lutas que terá que enfrentar, e somente então compreenderemos de onde vêm os preconceitos, os hábitos e as paixões que vão dominar a sua vida. O homem acha-se inteiro, por assim dizer, entre as cobertas de seu berço.
No caso das nações, verifica-se algo de análogo. Os povos guardam sempre as marcas da sua origem. As circunstâncias que acompanharam o seu nascimento e serviram ao seu desenvolvimento influem sobre todo o resto da sua existência.
Se nos fosse possível retroceder até os elementos das sociedades e examinar os primeiros monumentos da sua história, não tenho dúvidas de que poderíamos descobrir neles a causa primeira dos preconceitos, dos hábitos, das paixões dominantes, de tudo o que compõe afinal aquilo que chamamos caráter nacional. "
Alexis de Tocqueville (1805-1859), filósofo francês em ' A Democracia na América. '
III) LITERATOS
Lia Luft, escritora, tradutora e colunista da revista semanal Veja, nasceu em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, em 15 de setembro de 1938.
A sua família tinha muito orgulho de suas raízes germânicas, e Lia Luft, durante sua juventude, foi tida como uma menina desobediente e contestadora, que não gostava de aprender a cozinhar nem a bordar; que aos onze anos já recitava poemas de Goethe, e que tinha um relacionamento mais natural com o pai, um homem culto a quem idolatrava, do que com a mãe.
Diplomou-se em Pedagogia e em Letras, passando a traduzir obras de literatura em alemão e inglês.
Começou sua carreira escrevendo poemas, depois, contos e romances. Em 1978 foi lançada sua primeira coletânea de contos, Matéria do Cotidiano.
Seus livros são traduzidos para diversos idiomas, como alemão, inglês e italiano.
Sua literatura nasce do conflito, da dificuldade, do isolamento. É fascinada pelo lado complicado.
Entre suas obras: Canção de Limiar(1964); Flauta Doce(1972); As Parceiras(1980); Reunião de Família(1982); Pensar é transgredir(2004); Múltipla escolha(2010).
De Múltipla escolha:
" Como raramente cumprimos esses mandados, já ao levantar de manhã nos acompanha a sensação de que algo está errado conosco: dúvida e frustração.
Somos severos cobradores das nossas próprias ações.
No esforço de realizar tarefas que talvez nem nos digam respeito, tememos olhar em torno e constatar que muita coisa falhou.
Se falharmos, quem haverá de nos desculpar, de nos aceitar, onde nos encaixaremos, nesse universo de exitosos, bem-sucedidos, ricos e belos?
Pois não se permite o erro, o fracasso, nesse ambiente perfeito.
Duro dizer 'amei torto, ignorei meus filhos, falhei com minha parceira ou parceiro, votei errado, fracassei na profissão, não ajudei meu amigo, abandonei meus velhos pais e esqueci meus sonhos. "
IV) PENSAMENTO LIVRE
As pessoas querem sempre ser livres, mas, todo o tempo, aprisionam os que estão à sua volta, submetendo-os às suas mais bizarras vontades, à sua impaciência, ao desamor egoísta, à sua falta de educação e ao seu fustigante autoritarismo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário