I) CRÔNICAS
CEGUEIRA
Segurou seu cartão com o qual recebe a sua aposentadoria, à frente dos olhos.
Tinha dificuldades para dizer a si mesma, no impertinente silêncio do seu solipsismo, onde ninguém a vê, ouve ou diverge, a idade que tinha.
Recusava-se a ser idosa, a ter artrose, a ser aposentada e a admitir que se esquecia de coisas simplórias com facilidade e era chamada de senhora, que não lhe parecia questão de respeito, e sim por ter mais idade.
Achava-se jovem de espírito, o que era, como se isto fosse impeditivo para as rugas, os cabelos brancos, a limitada mobilidade física, as constantes idas aos médicos, a pressão alta e a dieta restritiva.
Lamentava-se que ninguém a olhava com desejo, esquecendo-se que o jovem e o belo têm sua estética contemplada por um determinado tempo, e o mais velho e carregado de virtuosos anos vividos, é admirado ou respeitado e contemplado pela sua cultura, conhecimentos, riqueza criativa, sabedoria e generosidade.
Ela cuidou, a vida toda, da sua superfície, e descuidou-se do seu espírito.
Não tem nada a oferecer a si própria e aos outros, a não ser sua angústia de não ser mais jovem.
Para seu mórbido consolo, o ser humano não vive tanto quanto uma montanha!
VOZ DE INCLUSÃO
Seu elemento de inclusão é seu instrumento musical.
Tímido, pouco fala. Sua voz, é seu pequeno bandolim.
Sua taciturnidade se desfaz quando seu bandolim ressoa seus acordes.
Que seria, que faria, se sua alma, intrinsicamente reclusa na sua quietude, não tivesse como amado, seu bandolim, seu elemento de comunicação.
Seu instrumento é falante e alegre, e, então, sua timidez é sublimada.
Sua quietude é o refúgio da sua alma, seu bandolim, seu grito de liberdade!
II) MESTRES
" Resistir sem violência não quer dizer não fazer nada. Significa fazer o esforço enorme que se requer para vencer o mal com o bem. Esse esforço não confia em músculos fortes nem em armamentos diabólicos; confia no valor moral, no domínio de si mesmo e na consciência inesquecível e tenaz de que não há um único homem sobre a terra (por mais brutal, por mais pessoalmente hostil que seja) sem um fundo nato de bondade, sem amor à justiça, sem respeito pelo verdadeiro e bom, que podem ser alcançados por todo aquele que usar os meios adequados. "
Aldous Huxley (26/07/1894 - 22/11/1963), pensador, em 'An Encyclopedia of Pacifism .'
III) LITERATOS
Elisa Barreto (17/7/1919-18/08/2005) iniciou sua carreira em princípios da década de 1960, estimulada por grandes nomes da nossa literatura como Cassiano Ricardo, Guilherme de Almeida e Menotti de Picchia.
Produziu uma poesia numa linguagem feita de canto, de belezas expressionais num tom suave de lirismo, onde vai tecendoa sua rede de palavras, seu mosaico de emoção.
A revista inglesa 'Times of Brazil', edição de Natal de 1963, publicou, em destaque, o poema 'Lágrimas e Flores para o Presidente da Paz', que Elisa Barreto escreveu sobre a morte trágica de John F. Kennedy, dos Estados Unidos, cujo original se encontra na Biblioteca da Universidade de Harvard.
Foi funcionária da Justiça, e imortal da Academia de Letras de Campos do Jordão e da Academia Joseense de Letras, na sua primeira constituição.
Entre suas obras: Sonetos; Canção de Agradecer; Caminhos de Mim; Poesia.
De seu livro 'Tecendo o Infinito':
'Tecendo o Infinito'
Se tenho sede tu me ofertas vinho,
se sou condor me chamas passarinho.
Vou galopar na crista de uma onda,
na lâmpada dourada de Aladim,
e o sol que é meu amigo não se esconda
quando me vir volatizada assim.
Se sou sereia tu me queres Diana,
se sou amor me chamas de profana.
Vou palmilhar as jardas da amplidão
com as linhas do meu corpo-carretel.
Alcançarei as nuvens com a mão
e elas serão doçura em meu farnel.
Se devaneio dizes tu: "labora",
se em lides sofro, teu sorriso chora.
Vou ser a rósea concha em mar bravio
e ouvir a voz das águas revoltadas;
atear o fogo onde imperar o frio,
e reaquecer as regiões geladas.
Se me lamento tu me dizes: "canta"!
E a minha voz teu ânimo levanta.
Vou conversar com meu irmão de Marte
e lhe pedir que mande o elevador,
-aquele que me leva a toda parte,
onde não mora a morte nem a dor.
Se gargalhando, às vezes, perco o siso,
vejo o perdão pintado em teu sorriso.
Vou inflar como a alma de um gigante,
ser um Ícaro novo, um potentado,
depois pousar num híbrido elefante,
de patas de marfim e dorso alado.
Se fogem-me as lembranças da retina,
me emprestas a memória peregrina.
Eu teço o indefinido e o impreciso
e não me culpas de tecer assim,
com fios e linhas desse paraíso,
onde os rumos não têm princípio ou fim.
Se o tempo voa dizes tu: "Que importa?"
"Tu viverás, embora estando morta."
IV) PENSAMENTO LIVRE
A incessante falta de gentilezas, o marcado individualismo, a desmedida ambição e a estigmatizante presunção são as gárgulas que afeiam as relações humanas.
Caro Augusto:
ResponderExcluirParabéns por fazer colocações tão precisas em seu tópico IV) Pensamente Livre" onde você aborda com muita clareza e definição o que são as pessoas da sociedade de hoje. É exatamente isto que acontece (falta de gentilezas, todos só pensam em si e a ambição pelo poder cada vez mais procurada. Gostei.
Outro ponto importante é o que você aborda no tópico II) Mestres. Todos temos uma pequena dose de bondade dentro de nós. O que é preciso é desenvolvê-la e praticá-la. Mas estamos muito longe disto. Acho que será difícil atingirmos.
Grande abraço. Dario