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sábado, 9 de abril de 2011


I) CRÔNICAS

AUSÊNCIA

Não mais se enxergam através dos seus corações. Foi-se a magia, o carinho e a sensualidade da presença do outro, num imperceptível esvaziamento do amor, tragado lentamente pela rotina da intimidade.

Instalou-se nos espíritos um olhar distante, um para o norte, outro para sul.

À mesa, o silêncio da presença ausente, quebrado apenas pelo leve e metálico recostar dos talheres nos pratos.

Um dia, no idealismo das suas ilusões, repartiram sonhos, desejos, esperanças e palpitações.

Hoje, repartem acomodado enfado.

É um casal, como tantos, prisioneiro das suas impossibilidades!

SENTIMENTOS ESCONDIDOS

As palavras não ditas, os desejos assumidos, os gestos contidos, o prazer não sentido, o gosto não saboreado.

A desesperança do inatingível na distância tão perto.

O olhar na discrição do relance, a contida palpitação dos sentidos.

A alma em sofrimento reprimido, a esperança em elevado voo.

O encantamento do pôr do sol no seu lento cair, o céu encontrando a terra, num horizonte tão distante quanto as possibilidades do seu querer.

Seu coração, sôfrego, se entristece não pelo que deseja ter, mas pelo que deseja entregar!

II) MESTRES

" O homem simples vive como respira, sem maiores esforços nem glórias, sem maiores efeitos nem vergonha. O homem comum é aquele que sabe que as casas são construídas para dentro delas se viver, e não para serem admiradas por fora. A simplicidade é a vida sem frases de efeito, sem mentiras, sem exageros e sem grandiloquência. É a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos. "

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da Universidade São Paulo.

III) LITERATOS

João Cabral de Melo Neto, poeta e diplomata, nasceu em Recife em 20/01/1920 e faleceu no Rio de Janeiro em 09/10/1990.

Sua obra poética vai de uma tendência surrealista até a prosa popular, porém caracterizada pelo rigor estético, com poemas avessos a confessionalismos e marcados pelo uso de rimas toantes.

Sua magnum opus foi ' Morte e Vida Severina ' (1966).

Era membro da Academia Pernambucana de Letras e da Academia Brasileira de Letras.

Do livro 'João Cabral de Melo Neto - Obra completa ' (1994):

CARTÃO DE NATAL

Pois que reinaugurando essa criança

pensam os homens

reinaugurar a sua vida

e começar novo caderno,

fresco como o pão do dia;

pois que nestes dias a aventura

parece em ponto de voo, e parece

que vão enfim poder

explodir suas sementes.

Que desta vez não perca esse caderno

sua atração núbil para o dente;

que o entusiasmo conserve vivas suas molas,

e possa enfim o ferro

comer a ferrugem

o sim comer o não.

IV) PENSAMENTO LIVRE

O ser humano, é desumanamente imprevisível e cruel.

Mal menor, a maioria se agasta em embates de muita pobreza espiritual e de pouca monta, enquanto um reduzido, mas altamente destrutivo número de psicopatas é responsável por uma predação sem sentido que ultraja os justos e contradiz a melhor cepa do pensamento cristão!

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