I) CRÔNICAS
AUSÊNCIA
Não mais se enxergam através dos seus corações. Foi-se a magia, o carinho e a sensualidade da presença do outro, num imperceptível esvaziamento do amor, tragado lentamente pela rotina da intimidade.
Instalou-se nos espíritos um olhar distante, um para o norte, outro para sul.
À mesa, o silêncio da presença ausente, quebrado apenas pelo leve e metálico recostar dos talheres nos pratos.
Um dia, no idealismo das suas ilusões, repartiram sonhos, desejos, esperanças e palpitações.
Hoje, repartem acomodado enfado.
É um casal, como tantos, prisioneiro das suas impossibilidades!
SENTIMENTOS ESCONDIDOS
As palavras não ditas, os desejos assumidos, os gestos contidos, o prazer não sentido, o gosto não saboreado.
A desesperança do inatingível na distância tão perto.
O olhar na discrição do relance, a contida palpitação dos sentidos.
A alma em sofrimento reprimido, a esperança em elevado voo.
O encantamento do pôr do sol no seu lento cair, o céu encontrando a terra, num horizonte tão distante quanto as possibilidades do seu querer.
Seu coração, sôfrego, se entristece não pelo que deseja ter, mas pelo que deseja entregar!
II) MESTRES
" O homem simples vive como respira, sem maiores esforços nem glórias, sem maiores efeitos nem vergonha. O homem comum é aquele que sabe que as casas são construídas para dentro delas se viver, e não para serem admiradas por fora. A simplicidade é a vida sem frases de efeito, sem mentiras, sem exageros e sem grandiloquência. É a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos. "
Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da Universidade São Paulo.
III) LITERATOS
João Cabral de Melo Neto, poeta e diplomata, nasceu em Recife em 20/01/1920 e faleceu no Rio de Janeiro em 09/10/1990.
Sua obra poética vai de uma tendência surrealista até a prosa popular, porém caracterizada pelo rigor estético, com poemas avessos a confessionalismos e marcados pelo uso de rimas toantes.
Sua magnum opus foi ' Morte e Vida Severina ' (1966).
Era membro da Academia Pernambucana de Letras e da Academia Brasileira de Letras.
Do livro 'João Cabral de Melo Neto - Obra completa ' (1994):
CARTÃO DE NATAL
Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de voo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes.
Que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.
IV) PENSAMENTO LIVRE
O ser humano, é desumanamente imprevisível e cruel.
Mal menor, a maioria se agasta em embates de muita pobreza espiritual e de pouca monta, enquanto um reduzido, mas altamente destrutivo número de psicopatas é responsável por uma predação sem sentido que ultraja os justos e contradiz a melhor cepa do pensamento cristão!
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